Impasse no Peru coloca Keiko Fujimori e Roberto Sánchez no centro de uma eleição histórica e polarizada

​“Amo meu país, me envergonha o congresso”. Cartazes com essa frase resumem o impasse peruano. Em nenhum país da América do Sul a representatividade política perdeu tanta credibilidade nas últimas décadas como no Peru. Desde que o presidente Pedro Pablo Kuczynski renunciou para evitar um impeachment em 2018, a erosão institucional e a instabilidade pioraram de forma drástica, levando o país a registrar um recorde de oito mandatários em apenas uma década.

​A atual eleição presidencial de 2026, que deveria trazer um desfecho para o arrastado cenário de incertezas, acabou por aprofundar as divisões estruturais da nação. A apuração do segundo turno, realizada em junho de 2026, transformou-se em uma verdadeira batalha voto a voto, expondo um país rigidamente fragmentado entre dois projetos e dois extremos ideológicos.

​O duelo nas urnas e o abismo social

​De um lado, a candidata da direita conservadora, Keiko Fujimori (Força Popular), carrega o legado político de seu pai, o falecido ex-presidente Alberto Fujimori. Sua plataforma defende a manutenção do modelo econômico de mercado e a promessa de restaurar o princípio de autoridade para conter os índices de criminalidade. Do outro lado, o candidato de esquerda, Roberto Sánchez (Juntos por el Perú), tenta canalizar a herança do voto camponês e das classes desfavorecidas que antes apoiavam o ex-presidente Pedro Castillo — atualmente preso após sua tentativa de autogolpe em 2022.

​A reta final da contagem oficial, sob a condução da ONPE (órgão eleitoral peruano), revelou uma vantagem mínima para Keiko Fujimori, fixada em uma margem inferior a 0,1% dos votos válidos — uma diferença inferior a 33 mil sufrágios. Enquanto Sánchez obteve votações esmagadoras superiores a 90% nas regiões andinas de forte vulnerabilidade social, Keiko garantiu o domínio nos bairros nobres e de classe média alta da capital, Lima, além de obter vantagem decisiva no voto dos peruanos residentes no exterior.

​O pêndulo da instabilidade institucional

​A crise atual é o reflexo de um sistema político em frangalhos, gerido sob mandatos interinos e destituições em série. A antecessora eleita, Dina Boluarte, deixou a liderança do país com os menores índices de aprovação popular da história global, abrindo caminho para que o presidente do Congresso assumisse a chefia interina do Executivo até o pleito atual.

​Mesmo com as impugnações judiciais em andamento e as contestações de atas eleitorais promovidas pelas bancadas partidárias, analistas apontam que o verdadeiro desafio do próximo governante não será apenas validar sua vitória na Justiça Eleitoral, mas gerenciar um paradoxo único na região:

​O Peru ostenta um relativo consenso macroeconômico, inflação controlada e exportações minerais sólidas. Contudo, essa aparente estabilidade de mercado caminha lado a lado com um ambiente social onde a informalidade trabalhista atinge quase 70% da população e a desconfiança nas instituições democráticas é praticamente generalizada.

​Independentemente de quem assuma a Casa de Pizarro para o próximo período presidencial, o novo mandatário terá de governar com um parlamento fragmentado e sob a sombra de uma população que, há anos, sinaliza que o modelo político tradicional já não representa suas urgências cotidianas.


Descubra mais sobre O expresso Br

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *