A Agência Nacional do Cinema (Ancine) abriu processos de apuração contra a produtora Go Up Entertainment Ltda. devido a irregularidades nas filmagens de Dark Horse, obra cinematográfica que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. De acordo com investigações regulatórias, o longa-metragem — promovido nos bastidores como uma “produção hollywoodiana” — operou em território nacional sem cumprir as obrigações legais básicas exigidas pela agência reguladora, resultando no arquivamento definitivo de pedidos de regularização por falta de documentos.
A empresa responsável pela cinebiografia atuou sem o devido registro da produção cinematográfica e falhou na apresentação de contratos obrigatórios. Além disso, a Go Up Entertainment operou sem comprovar a emissão de vistos de trabalho para o seu elenco e equipe técnica, composta majoritariamente por estrangeiros — incluindo o ator norte-americano Jim Caviezel, escalado para interpretar o ex-presidente.
Violações trabalhistas e precariedade nos sets
Além do cenário de irregularidade regulatória perante a Ancine, a produção enfrenta denúncias no campo trabalhista. Profissionais brasileiros que integraram a equipe técnica relatam falta de pagamento de direitos devidos, remunerações abaixo da média de mercado e condições precárias de trabalho durante as filmagens realizadas em São Paulo.
Pelo menos 14 figurantes que participaram das gravações já articulam ações judiciais contra a produtora, alegando “dificuldades estruturais” severas nos sets de gravação, o que contrasta com o orçamento milionário estimado para o projeto.
Polêmicas financeiras e articulação política
O escândalo regulatório soma-se a uma forte crise política e financeira que envolve o financiamento de Dark Horse. Mensagens e áudios revelados recentemente indicam que a produção já custou cerca de R$ 65,7 milhões, sendo que a maior parte desse montante teria partido de negociações lideradas pelo senador Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O senador admitiu publicamente o recebimento de repasses milionários, justificando-os como “patrocínio” ou “investimento privado”.
Documentos revelam ainda que o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o ex-secretário de Cultura Mário Frias — que assina a história e atua como produtor executivo do filme — possuíam controle direto sobre a gestão financeira e burocrática dos recursos. Paralelamente, investigações jornalísticas apontam que a sócia-administradora da Go Up, Karina Ferreira da Gama, também preside entidades culturais que fecharam contratos milionários de recursos públicos, gerando suspeitas que agora são alvo de acompanhamento por órgãos de controle e pela Polícia Federal.
A Ancine informou que notificou formalmente a Go Up Entertainment e que os processos administrativos de apuração seguem os ritos normativos vigentes. O lançamento de Dark Horse nos Estados Unidos está previsto para setembro deste ano, enquanto a exibição e distribuição da obra no mercado brasileiro permanecem juridicamente travadas devido à ausência de registro legal.





