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Walter Salles e Kleber Mendonça Filho levam memória da ditadura ao centro do debate global com vitórias históricas no Oscar e em Cannes

Walter Salles e Kleber Mendonça Filho levam memória da ditadura ao centro do debate global com vitórias históricas no Oscar e em Cannes

O cinema brasileiro vive um momento de consagração internacional sem precedentes, utilizando a sétima arte como uma poderosa ferramenta de elaboração histórica. Em um intervalo de poucos meses, os cineastas Walter Salles e Kleber Mendonça Filho não apenas conquistaram os principais palcos do mundo — do Oscar ao Festival de Cannes —, mas reabriram feridas e diálogos sobre o período da ditadura militar (1964-1985), transformando traumas silenciados em reconhecimento artístico global.

O triunfo histórico de “Ainda Estou Aqui”

Na cerimônia do Oscar 2025, realizada no último dia 2 de março, Walter Salles fez história ao receber a estatueta de Melhor Filme Internacional por Ainda Estou Aqui. Em seu discurso, Salles dedicou o prêmio a Eunice Paiva, a mulher que resistiu ao desaparecimento forçado de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva. “Esse prêmio vai para uma mulher que decidiu não se dobrar”, afirmou o diretor. O longa, que já havia rendido a Fernanda Torres o Globo de Ouro de Melhor Atriz e o prêmio de Melhor Roteiro em Veneza, tornou-se um fenômeno de bilheteria no Brasil, levando milhões de espectadores a confrontar a face doméstica e cruel do autoritarismo.

Wagner Moura e a consagração em Cannes

Dando continuidade à “era de ouro” recente, o novo filme de Kleber Mendonça Filho, O Agente Secreto, brilhou intensamente no Festival de Cannes 2025. O protagonista Wagner Moura venceu o prêmio de Melhor Ator, uma conquista inédita para o país na categoria masculina do festival francês. Situado em 1977, no Recife, o suspense narra a história de um especialista em tecnologia que tenta escapar de seu passado enquanto a vigilância do regime se fecha ao seu redor. O filme, que estreia no Brasil no final de 2025 com altas expectativas para o Oscar 2026, utiliza o gênero do suspense para tratar da paranoia institucionalizada da época.

A visão do psicanalista: O silêncio como sintoma

Para o psicanalista Rafael Alves Lima, professor da USP e autor do livro Psicanálise na Ditadura, esse movimento cinematográfico é fundamental para a saúde psíquica da nação. Em entrevista recente, Lima destaca que o período militar foi marcado por um “silenciamento produtivo” — onde a psicanálise, paradoxalmente, cresceu enquanto o país se calava.

​Segundo o pesquisador, filmes como os de Salles e Mendonça Filho operam como uma “política de memória” necessária. “O silêncio era a marca do sofrimento psicológico naquele período”, explica Lima. Para ele, ao dar visibilidade às histórias de desaparecidos e à paranoia do Estado, o cinema ajuda a trazer à tona a “dimensão psicológica do trauma”, impedindo que a sociedade brasileira permaneça em um estado de “neurose” que permite a repetição de impulsos autoritários.

Impacto cultural e futuro

A recepção calorosa dessas obras indica que o público brasileiro e a crítica internacional estão ávidos por narrativas que humanizem a estatística dos anos de chumbo. Com O Agente Secreto já despontando como favorito para a temporada de premiações de 2026 e Ainda Estou Aqui consolidado como um marco histórico, o cinema nacional reafirma que recordar não é apenas um ato político, mas uma necessidade terapêutica para um país que ainda busca reconciliar-se com o próprio passado.

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