Um levantamento inédito realizado com base em dados do Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) revela uma disparidade alarmante no destino das verbas culturais no Brasil. Entre os anos de 2024 e 2025, a maior parte dos recursos destinados a apresentações artísticas por prefeituras foi direcionada a apenas 1% das empresas contratadas, evidenciando uma forte concentração de renda em um grupo restrito de agenciadores e artistas.
De acordo com a análise de aproximadamente 85 mil contratos, o montante total destinado a shows atingiu a marca de R$ 5,2 bilhões. No entanto, um grupo de elite composto por apenas 200 empresas abocanhou R$ 2,9 bilhões desse total. O fenômeno ocorre principalmente por meio de contratos firmados com inexigibilidade de licitação, mecanismo jurídico utilizado quando o artista possui “notoriedade reconhecida”.
Os protagonistas dos maiores cachês
O gênero sertanejo domina o topo da lista de arrecadação pública. Entre os artistas que mais receberam recursos de prefeituras e governos estaduais no período recente, destacam-se:
- Gusttavo Lima: Líder absoluto, com repasses que somam aproximadamente R$ 52 milhões.
- Bruno e Marrone: Com contratos que totalizam R$ 45 milhões.
- Leonardo: Arrecadou cerca de R$ 42 milhões em apresentações públicas.
- Chitãozinho & Xororó: Somaram R$ 38 milhões em verbas municipais e estaduais.
- Zezé Di Camargo: Registrou recebimentos de R$ 20 milhões apenas em 2025.
O crescimento dos gastos e a “CPI do Sertanejo”
O ano de 2024, marcado pelas eleições municipais, registrou um salto de 40% nos gastos com shows em comparação ao ano anterior. Estados como Minas Gerais lideram o ranking de investimentos, com municípios como Barbacena e Itabirito destinando milhões de reais para eventos festivos.
Essa movimentação financeira bilionária reacendeu o debate sobre a fiscalização desses recursos. O Ministério Público tem intensificado investigações no Rio de Janeiro e em Minas Gerais para apurar se os valores pagos são proporcionais à realidade econômica das cidades. Críticos apontam que, enquanto artistas atacam mecanismos como a Lei Rouanet (que exige contrapartidas e aprovação de projetos), os shows de prefeitura utilizam verba direta do tesouro municipal, muitas vezes proveniente de “emendas PIX”, sem a mesma transparência ou critérios de fomento à diversidade regional.




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