A redução da insegurança alimentar no Brasil ganhou um rosto central nos últimos anos: o das mulheres chefes de família. Dados recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, divulgados pelo IBGE e complementados por estudos da Fundação Getulio Vargas (FGV), revelam que a fome recuou de forma mais acentuada em residências beneficiárias do Bolsa Família onde a gestão dos recursos está nas mãos femininas.
Entre os domicílios que superaram a insegurança alimentar grave e atingiram o patamar de segurança alimentar plena, cerca de 71% têm uma mulher como responsável pelo lar. O fenômeno reflete não apenas o impacto direto da transferência de renda, mas uma eficiência maior na alocação desses recursos para as necessidades básicas do núcleo familiar.
Gestão feminina prioriza nutrição e saúde
De acordo com a pesquisadora Janaína Rodrigues Feijó, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), a literatura acadêmica e os dados práticos coincidem: quando mulheres controlam a parcela majoritária do orçamento doméstico, os gastos tendem a priorizar bens associados ao bem-estar infantil e familiar.
”Elas demonstram uma melhor aplicação dos recursos dentro do ambiente doméstico, principalmente quando há crianças”, afirma Feijó. A pesquisa detalha que, em um intervalo de apenas um ano, quase um milhão de residências (946,6 mil) beneficiadas pelo programa deixaram de passar fome, sendo que 670 mil delas eram lideradas por mulheres.
O impacto dos novos valores do Bolsa Família
O avanço nos índices de segurança alimentar também é atribuído à reestruturação do programa pelo governo federal. Atualmente, o valor base de R$ 600 é complementado por adicionais conforme a composição familiar — como o Benefício Primeira Infância, que paga R$ 150 por criança de até seis anos, e o adicional de R$ 50 para gestantes e jovens de sete a 18 anos.
Em março de 2026, o valor médio do benefício atingiu R$ 683,75, atendendo mais de 18,7 milhões de famílias. Esse aporte financeiro, somado à queda no desemprego e à inflação controlada de alimentos, permitiu que o Brasil registrasse uma redução na proporção de domicílios com algum grau de insegurança alimentar de 27,6% para 24,2% no último período avaliado.
Desafios regionais e de raça
Apesar do otimismo, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS) destaca que a luta contra a fome ainda exige atenção a recortes específicos. “Não tem como pensar em combate à fome sem pensar em raça”, pontuou a gestão federal ao analisar que a insegurança alimentar grave ainda atinge de forma desproporcional lares chefiados por pessoas pardas e pretas, especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
O Brasil, que havia saído do Mapa da Fome da ONU em 2014 e retornado em 2022, caminha agora para consolidar uma nova saída. Segundo o relatório SOFI (Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo) da FAO, as políticas públicas brasileiras atuais têm servido de modelo regional para a América Latina, onde a fome registrou redução progressiva graças à recuperação econômica e ao fortalecimento da rede de proteção social.




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