Bilionária australiana apoia exploração de terras raras na Bahia e gera apreensão em comunidade tradicional
A corrida global pela transição energética e pelo controle de minerais críticos encontrou no solo baiano um novo capítulo de tensão social e ambiental. A mineradora australiana Brazilian Rare Earths (BRE), que conta com o aporte financeiro da bilionária Gina Rinehart — a mulher mais rica da Austrália e expressiva apoiadora do ex-presidente norte-americano Donald Trump —, avança em projetos de exploração de terras raras na região do Recôncavo e do Vale do Jiquiriçá, na Bahia.
O empreendimento atende ao apetite das cadeias industriais ocidentais e ao setor de defesa dos Estados Unidos, que buscam alternativas ao predomínio da China no mercado global de terras raras. No entanto, a perspectiva de lucro e suprimento estratégico contrasta diretamente com a apreensão vivenciada por moradores da comunidade rural de Monte Alto, majoritariamente negra e voltada para a agricultura familiar.
Cerco fundiário e pressão sobre os moradores
Segundo relatos da população local, a atuação da mineradora — operada no território por meio da subsidiária Borborema — tem gerado incertezas e clima de coerção. Moradores apontam que os primeiros contatos ocorreram de forma pouco clara, com solicitações para coleta de amostras de solo que evoluíram para ofertas de compra de propriedades.
Para intermediar as negociações fundiárias, foi contratada a consultoria Synergia. Relatos colhidos na comunidade indicam abordagens baseadas em pressão psicológica, com prazos exíguos para aceite de propostas de aquisição sob o aviso de potenciais disputas judiciais caso os imóveis não fossem vendidos voluntariamente.
A ampliação das vias de acesso e a presença constante de máquinas pesadas alteraram a rotina do povoado, enquanto propostas financeiras de compra geram divisões entre os residentes. Parte da comunidade resiste em deixar as terras que abrigam seu sustento produtivo e raízes históricas.
Sobreposição a áreas protegidas e riscos ambientais
A apreensão em Monte Alto ganha contornos ainda mais complexos devido ao aspecto regulatório e ambiental. Pesquisas da Universidade Federal da Bahia (UFBA) identificaram processos minerários ativos requeridos pela empresa junto à Agência Nacional de Mineração (ANM) com sobreposição à Estação Ecológica Wenceslau Guimarães, uma Unidade de Conservação de proteção integral.
Apesar de a mineradora ter obtido autorização temporária para extração em pequena escala (2 mil toneladas por ano), a empresa assegura que a fase de extração efetiva ainda não foi iniciada. Questionada sobre o teor do subsolo e possíveis riscos adicionais, a companhia declarou que o local não se trata de uma mina de urânio e que não realizará o processamento químico ou enriquecimento desse elemento na área.
Em nota, a assessoria de Gina Rinehart ressaltou que a investidora possui uma participação minoritária na Brazilian Rare Earths e que as decisões operacionais e de gestão do projeto cabem exclusivamente à diretoria da mineradora.
Enquanto os investidores mantêm o otimismo com a captação de recursos no mercado internacional para acelerar a infraestrutura de mineração e refinamento na Bahia, a comunidade de Monte Alto se organiza com apoio de entidades locais para defender seu direito ao território e exigir transparência nos impactos socioambientais da empreitada.
Assista ao vídeo Bilionária trumpista quer explorar terras raras na Bahia para acompanhar a reportagem em vídeo sobre o projeto minerário na Bahia e seus impactos no povoado de Monte Alto.
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