A estratégia de mobilização digital criada pelo deputado federal André Janones (Rede-MG) para a campanha vitoriosa de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2026 deixou de ser um fenômeno brasileiro. Uma semana após a reeleição, o chamado “janonismo” já é reproduzido por partidos e movimentos de esquerda na França, na Argentina, na Espanha e na Colômbia, que veem no modelo uma forma de disputar o terreno digital dominado pela direita.
O centro da estratégia é o canal “Exército do Lula” no WhatsApp, que ultrapassou 10 milhões de seguidores durante o segundo turno. Em vez de apenas receber conteúdo, os participantes eram convocados a cumprir “missões” diárias: compartilhar vídeos, impulsionar publicações, promover hashtags e convidar novos integrantes. Outra orientação central era evitar interagir com publicações adversárias, inclusive por meio de comentários críticos, para não alimentar os algoritmos e ampliar o alcance dos oponentes.
O método em ação pelo mundo
Na França, o deputado Antoine Léaument, responsável pela comunicação do partido França Insubmissa (LFI), de Jean-Luc Mélenchon, publicou em 27 de outubro um artigo com as “seis lições de Janones”. O roteiro inclui organizar um canal de WhatsApp, distribuir tarefas aos apoiadores e provocar adversários sem compartilhar seus posts originais — respondendo com capturas de tela e, em alguns casos, bloqueando contas da direita. O canal oficial “L’équipe de Mélenchon officielle” saltou de 57 mil para 147 mil integrantes em poucos dias, mirando a eleição presidencial de 2027.
Na Argentina, apoiadores do peronismo criaram o “Ejército del Peronismo”, canal que se apresenta explicitamente como inspirado no Exército do Lula e convoca os participantes a receber suas “missões”. O grupo publica vídeos e orienta a militância a espalhar conteúdos nas redes, já de olho na eleição presidencial de 2027.
Na Espanha, o canal “La Fuerza de la Gente”, de apoio ao primeiro-ministro Pedro Sánchez, incorporou as “6 regras da estratégia digital de Janones” e saltou de 7 mil para 43 mil seguidores em três dias. O país terá eleições gerais em 29 de novembro de 2026, e Sánchez teria convidado Janones para colaborar — embora não haja confirmação de participação direta.
Na Colômbia, o ex-presidente Gustavo Petro elogiou publicamente a articulação de Janones no X. O deputado brasileiro respondeu em espanhol e ofereceu colaboração: “Me coloco à disposição da Colômbia, de seu povo e da esquerda mundial”. Janones também recebeu convites da presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, para visitar o México e discutir ações conjuntas.
Os limites do “janonismo”
Apesar do entusiasmo internacional, especialistas apontam que a transposição do método não é automática. O cientista político Leandro Consentino, do Insper, avalia que a estratégia digital será cada vez mais importante, “seja quem for o candidato”. No entanto, analistas ouvidos pela imprensa alertam para riscos de personalismo, empobrecimento do debate sobre políticas públicas e a dificuldade de sustentar o ritmo de mobilização a longo prazo.
Há também adaptações e desencontros. Diante de iniciativas francesas para bloquear contas de direita, Janones precisou esclarecer que sua orientação original era ignorar publicações adversárias, não necessariamente bloquear perfis — uma distinção sutil que pode se perder na tradução do método para outros contextos.
O “general do WhatsApp”, como Janones foi chamado por Lula na noite da vitória, transformou simpatizantes em agentes ativos de comunicação. Se o modelo vai funcionar fora do Brasil depende, agora, da capacidade de cada país de adaptar a lógica de militância digital às suas próprias realidades políticas — sem perder de vista que a eficácia eleitoral de uma tática não a torna automaticamente sustentável como projeto de longo prazo.
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