Flávio mobiliza aliados para conter desgaste com episódio do Bolsa Família
A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) iniciou uma operação de contenção para afastar o temor de cortes no Bolsa Família e evitar que o episódio se transforme em desgaste eleitoral na reta final do segundo turno, marcado para o próximo domingo (25). A crise foi deflagrada após uma declaração da coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, que abriu espaço para adversários questionarem quais despesas o senador pretende reduzir caso seja eleito presidente.
A controvérsia começou na última segunda-feira (19), quando Daniella afirmou, em entrevista à rádio CBN Salvador, que um eventual governo Flávio adotaria uma regra de transição de dois anos para beneficiários do Bolsa Família que conseguissem emprego com carteira assinada ou abrissem um negócio. Segundo a coordenadora, essas famílias poderiam retornar ao programa caso a nova fonte de renda não se sustentasse. “As pessoas não podem ficar presas para sempre no Bolsa Família. Aquilo é uma proteção, mas é o início de uma jornada”, declarou.
A fala foi rapidamente explorada por aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que passaram a associar a proposta ao encerramento do benefício após esse período. O PT também vinculou a declaração à promessa de Flávio de cortar R$ 200 bilhões em despesas públicas, sustentando que programas sociais poderiam sofrer cortes. A repercussão ocorre justamente na semana em que os beneficiários começaram a receber o reajuste de 15% concedido pelo governo Lula, o que ampliou o contraste entre as duas campanhas.
Diante do desgaste, Flávio publicou um vídeo nas redes sociais negando que pretenda acabar com o Bolsa Família e classificando a narrativa adversária como “fake news”. “O futuro ex-presidente, o Lula, está espalhando uma fake news daquela cabeluda. Ele está dizendo por aí que eu acabaria com o Bolsa Família em até dois anos. É óbvio que isso não vai acontecer, é óbvio que isso é mentira”, afirmou o senador. Na gravação, ele explicou que a proposta prevê que o beneficiário continue recebendo o auxílio por até dois anos após conseguir emprego ou abrir uma empresa, com retorno automático caso perca a nova fonte de renda.
A necessidade de mobilizar o próprio candidato para responder ao episódio provocou desconforto entre integrantes da campanha. Aliados avaliam que Daniella não conseguiu explicar a medida com clareza e abriu uma nova frente de desgaste às vésperas do segundo turno. Há também críticas à exposição da coordenadora, que tem concedido entrevistas sobre medidas de um eventual governo sem alinhamento prévio com o núcleo político da candidatura. Nos bastidores, a preocupação é que o tema já era uma “pedra no sapato” da campanha, que sofre ataques por não deixar claro como se dará o corte de R$ 200 bilhões nas contas públicas.
Como parte da estratégia para conter a crise, a campanha prepara um programa dedicado ao Bolsa Família para o horário eleitoral gratuito. A peça deve reforçar as promessas de ampliação e reajuste do benefício, além de garantir proteção aos beneficiários que conseguirem emprego ou abrirem um negócio. Integrantes da equipe temem repetir o desgaste enfrentado por Jair Bolsonaro na reta final de 2022, quando uma proposta do então ministro da Economia, Paulo Guedes, sobre aposentadorias virou munição eleitoral para Lula.
Além do programa de TV, Flávio deve intensificar agendas nas ruas e o uso de seguidores para reforçar a defesa de programas sociais e tentar conquistar votos na última semana. Nesta quarta-feira (21), o senador tem previsão de passar por São Paulo e pelo Ceará. Depois, deve bloquear a agenda para se preparar para o debate da TV Globo, na sexta-feira (23), e encerrar a campanha no sábado (24), com compromissos em Minas Gerais e no Rio de Janeiro.
A controvérsia em torno do Bolsa Família reacendeu a disputa pelo eleitorado que depende de programas de transferência de renda, tema historicamente sensível para a campanha de Flávio. A poucos dias da votação, a eficácia da operação de contenção dependerá da capacidade da campanha de virar a página do episódio e concentrar o debate em suas propostas econômicas, enquanto adversários seguem explorando a fala de Daniella como sinal de risco para os beneficiários.
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