O cenário financeiro global atravessa uma mudança de paradigma com o movimento de repatriação de reservas de ouro. Após a França consolidar a custódia de grande parte do seu metal precioso em solo doméstico, agora Alemanha e Itália dão sinais claros de que pretendem seguir o mesmo caminho, reduzindo a dependência dos cofres do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos. Fora do eixo europeu, a Índia também concluiu recentemente operações massivas de transferência de ouro do Reino Unido e dos EUA para seus próprios cofres em Mumbai.
Crise de confiança e o “fator Trump”
Embora a diversificação de custódia seja uma prática prudente de gestão de risco, analistas apontam que a motivação atual vai além da economia técnica. A instabilidade geopolítica e as tensões entre o governo dos Estados Unidos e o Federal Reserve têm gerado incertezas. Em 2025 e início de 2026, a pressão política sobre a autonomia do Fed — por vezes intensificada por declarações de Donald Trump e seus aliados — elevou o receio de países europeus sobre a segurança jurídica e a disponibilidade imediata de seus ativos em caso de crises globais ou sanções.
A Alemanha, que já havia repatriado parte expressiva de seu ouro na última década, estuda agora esvaziar quase por completo suas contas em Nova Iorque. A Itália, detentora da terceira maior reserva mundial, enfrenta pressões internas semelhantes para garantir que o “tesouro nacional” esteja sob jurisdição direta de Roma, protegendo-o de possíveis bloqueios internacionais ou instabilidades institucionais americanas.
O exemplo da Índia e a escalada de preços
A Índia tem sido um dos atores mais agressivos nesse movimento. Em 2024 e 2025, o Banco Central da Índia (RBI) transferiu centenas de toneladas de ouro que estavam guardadas no Banco da Inglaterra e no Fed. Para o governo indiano, manter o ouro “em casa” é uma questão de soberania financeira e uma resposta à valorização histórica do metal, que ultrapassou a marca de 5.500 dólares por onça no início de 2026, impulsionado por conflitos no Médio Oriente e a busca por ativos de refúgio.
E Portugal?
A situação de Portugal é distinta e reflete uma estratégia de longo prazo já consolidada. O Banco de Portugal (BdP) detém uma das maiores reservas de ouro do mundo proporcionalmente ao seu PIB (cerca de 382,7 toneladas).
Historicamente, uma parte destas reservas estava depositada em Nova Iorque, mas, desde 2021, Portugal deixou de ter ouro guardado na Reserva Federal dos Estados Unidos. Atualmente, a gestão portuguesa opta por uma divisão estratégica: cerca de 64% do ouro está depositado no Banco da Inglaterra (Londres), por ser o principal centro mundial de negociação do metal, permitindo operações rápidas de liquidez, enquanto o restante está guardado nos cofres do próprio Banco de Portugal, em Lisboa, e uma pequena parcela residual em outros bancos centrais europeus.
Com a valorização recorde do metal em 2026, as reservas portuguesas já ultrapassam o valor de 68 mil milhões de dólares, consolidando o país como um porto seguro financeiro na Europa Ocidental, mesmo sem a custódia direta do Fed.




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