Executivo da Nestlé contratou torturador da ditadura militar para atuar na empresa


Documentos históricos e investigações recentes revelam que a filial brasileira da multinacional suíça Nestlé manteve vínculos diretos com o aparato de repressão durante a ditadura militar (1964-1985). O caso mais emblemático envolve o ex-presidente da companhia no Brasil, Gualter Mano, e a contratação de figuras ligadas aos centros de tortura para atuar dentro da estrutura corporativa da empresa.
De acordo com o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e pesquisas detalhadas no podcast “Perdas e Danos”, da Agência Brasil, a Nestlé foi uma das empresas que financiaram a Operação Bandeirante (Oban). Esse braço clandestino de repressão, financiado pelo empresariado, serviu de modelo para a criação dos DOI-Codi, os principais centros de tortura e extermínio do regime.

Contratação de “Samuca” e apoio financeiro

A investigação aponta que a Nestlé contratou agentes do regime para seus quadros funcionais. Entre os nomes citados está o de um agente conhecido pelo codinome “Samuca”, que atuava no DOI-Codi e foi levado para a empresa pelo então executivo Gualter Mano. Registros do Arquivo Nacional também comprovam que a companhia fazia contribuições regulares ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), um think tank que articulou o golpe de 1964.
Enquanto o Brasil vivia sob censura e violência estatal, a Nestlé registrou um crescimento vertiginoso. Entre 1971 e 1975, a rentabilidade da empresa no país praticamente dobrou, superando o crescimento do próprio PIB brasileiro no período do chamado “milagre econômico”.

Resistência e novas controvérsias

Diferente de outras multinacionais que abriram seus registros para historiadores — como a Volkswagen, que admitiu colaboração com o regime —, a Nestlé tem dificultado o acesso a seus arquivos históricos. Pesquisadores relatam múltiplas negativas por parte da empresa ao tentarem consultar documentos do período militar.
Além do passado ligado à ditadura, a Nestlé enfrenta escrutínios atuais. Em 2024, a ONG suíça Public Eye denunciou que a marca comercializa produtos infantis com maiores teores de açúcar em países pobres e em desenvolvimento, como o Brasil, em comparação com os produtos vendidos nos mercados europeus.
No âmbito corporativo global, a empresa também atravessa um período de instabilidade: em setembro de 2025, o então CEO Laurent Freixe foi demitido após a descoberta de um relacionamento não revelado com uma subordinada, sendo substituído por Philipp Navratil, que agora tem a missão de recuperar a imagem e os resultados da gigante de alimentos.

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