Santiago Peña renuncia no Paraguai em meio a colapso de banco ligado ao seu governo e pressão de impeachment
ASSUNÇÃO — O presidente do Paraguai, Santiago Peña, apresentou sua renúncia formal ao cargo nesta quinta-feira (5), surpreendendo o cenário político da América Latina e cedendo a uma escalada de pressão popular e parlamentar. A decisão ocorre no momento em que a Câmara dos Deputados se preparava para analisar a abertura de um processo de impeachment contra o chefe do Executivo e seu vice, Pedro Alliana.
A crise política atingiu o ápice após o Banco Central do Paraguai (BCP) decretar a intervenção no Ueno Bank, instituição financeira digital que contava com quase 3 milhões de correntistas — englobando quase metade da população do país. Com o índice de solvência desabando para menos da metade do exigido por lei, as contas foram congeladas, deixando milhares de cidadãos, trabalhadores e estudantes sem acesso às próprias economias.
Conexões financeiras e acusações de corrupção
A derrocada de Peña está diretamente atrelada ao escândalo do Ueno Bank. O ex-presidente admitiu publicamente ter sido acionista da holding controladora do grupo até março de 2025. Além do conflito de interesses, o banco privado abrigava montantes bilionários provenientes do Instituto de Previdência Social paraguaio e de outros fundos estatais.
A Justiça paraguaia agiu rapidamente e determinou a prisão preventiva de oito executivos da instituição — incluindo o presidente do Ueno Bank, Juan Manuel Gustale, e o líder do grupo controlador, Miguel Vázquez —, sob acusações de lesão de confiança e fraudes milionárias. Nos bastidores de Assunção, a renúncia de Peña é vista como uma tentativa desesperada de evitar a prisão preventiva e o desdobramento de denúncias diretas enquanto perdurava o rito do impeachment.
O paralelo com o Banco Master e as ramificações regionais
A imprensa internacional e analistas do mercado já apelidaram o colapso paraguaio como a “crise do Banco Master de Assunção”, traçando paralelos com a liquidação do banco de Daniel Vorcaro no Brasil. Em ambos os casos, a trajetória envolveu crescimento acelerado, captação agressiva de fundos previdenciários e estreitas ligações com lideranças e figuras políticas conservadoras da região.
Investigações recentes e bastidores do circuito de poder na América do Sul apontam a circulação de grandes somas financeiras em festas privadas e eventos corporativos de alto padrão promovidos por figuras ligadas ao sistema financeiro intervenido. Os encontros contavam com a presença frequente de interlocutores do cenário internacional, entre os quais o senador brasileiro Flávio Bolsonaro — sob investigação por relações com Vorcaro — e representantes alinhados ao ecossistema do presidente argentino Javier Milei.
Com a renúncia de Peña, o Congresso paraguaio deve formalizar nos próximos dias a sucessão presidencial e dar andamento às investigações para apurar a extenso desvio de fundos e a cumplicidade de agentes públicos.
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