Arábia Saudita desafia EUA e China com investimento bilionário na indústria global de games

​A Arábia Saudita está consolidando uma estratégia agressiva para se tornar a maior potência global no mercado de jogos eletrônicos e eSports, buscando rivalizar diretamente com gigantes consolidados como os Estados Unidos e a China. O plano, liderado pelo Fundo de Investimento Público (PIF, na sigla em inglês), faz parte da ambiciosa iniciativa Vision 2030, que visa diversificar a economia do Reino e reduzir sua histórica dependência das exportações de petróleo.

​Para impulsionar essa transição, os sauditas vêm promovendo aportes financeiros gigantescos no setor. Um dos maiores marcos dessa ofensiva foi o anúncio de um plano de investimentos de mais de US$ 38 bilhões (aproximadamente R$ 200 bilhões) focados na indústria de jogos, além de transações de enorme impacto no mercado corporativo de entretenimento. Entre os movimentos recentes de destaque global estão a histórica aquisição da publicadora norte-americana Electronic Arts (EA) — criadora de franquias consagradas como EA Sports FC e Battlefield — por US$ 55 bilhões em uma parceria estratégica, e a compra da divisão de jogos da Niantic (incluindo o fenômeno Pokémon GO) por US$ 3,5 bilhões por meio da Scopely, subsidiária do fundo soberano saudita.

​Copa do Mundo de eSports deixa Riad e desembarca em Paris

​Como principal vitrine desse novo império digital, a Esports World Cup (EWC) — a Copa do Mundo de eSports — iniciou uma nova fase em sua trajetória ao ser realizada, pela primeira vez na história, fora do território saudita. Em 2026, a badalada capital francesa, Paris, foi escolhida para sediar o evento de forma temporária.

​A mudança estratégica para o coração da Europa visa aproximar a competição do público ocidental e testar a viabilidade logística internacional da marca. Contudo, razões geopolíticas também influenciaram a decisão: a instabilidade recente e os conflitos no Oriente Médio envolvendo a região levaram a organização a transferir a sede para garantir a segurança de vistos, viagens e a integridade de atletas e delegações.

​O torneio em Paris estende-se por sete semanas e reúne mais de 2 mil jogadores profissionais, representando cerca de 200 clubes de mais de 100 países (incluindo forte presença de equipes brasileiras, como a Furia). Eles disputam uma premiação recorde de US$ 75 milhões (cerca de R$ 410 milhões), distribuída ao longo de 24 modalidades competitivas distintas. Embora o palco atual seja a Europa, a liderança do projeto faz questão de ressaltar que a base espiritual do evento permanece inalterada. “Riad será sempre o lar e o ponto de partida desta jornada”, declarou o príncipe Faisal bin Bandar bin Sultan, presidente da Federação Saudita de eSports.

​Metas econômicas e inclusão social até 2030

​A estratégia nacional de jogos e eSports da Arábia Saudita prevê metas socioeconômicas audaciosas até o final desta década:

  • Impacto no PIB: Contribuição projetada de aproximadamente R$ 13 bilhões para a economia local até 2030.
  • Geração de Empregos: Criação de mais de 39 mil vagas de trabalho especializadas em desenvolvimento de software, publicação de jogos e infraestrutura tecnológica.
  • Engajamento da População: Cerca de 67% dos sauditas (mais de 23,5 milhões de pessoas) declaram-se entusiastas de jogos.
  • Diversidade e Gênero: O setor registra um engajamento histórico de mulheres, que representam hoje 42% do público gamer geral no país e 18% dos competidores ativos de esportes eletrônicos.

​Apesar da rápida ascensão, os investimentos sauditas enfrentam o desafio global de tornar o cenário competitivo de jogos financeiramente sustentável e autossuficiente a longo prazo, mitigando a dependência de fluxos rápidos e instáveis de capital. Além disso, o país busca estruturar campeonatos entre nações para garantir um calendário estável e atrair grandes marcas patrocinadoras que tradicionalmente investem apenas no esporte convencional. No horizonte do governo saudita, a meta final é clara: fazer com que os atletas de jogos eletrônicos alcancem o mesmo status de superestrelas e heróis nacionais hoje reservados aos astros do futebol de campo.


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