Fantasma de Tchernóbil segue vivo 40 anos após o acidente

Ataque com drone russo afetou estrutura de contenção da radiação no reator que explodiu na Ucrânia; maior desastre da história, ao lado de Fukushima, aumenta desconfiança sobre energia nuclear

DA REDAÇÃO

​Quatro décadas após o maior desastre nuclear da história, o nome de Tchernóbil volta a estampar manchetes globais não apenas como uma memória de erro humano, mas como um alvo estratégico e vulnerável em meio à guerra entre Rússia e Ucrânia. O que antes era uma zona de exclusão silenciosa e dedicada à ciência tornou-se, em fevereiro de 2025, o cenário de um novo pesadelo: um ataque de drone russo atingiu o Arco de Confinamento Seguro (NSC), a gigantesca estrutura de aço construída para isolar os restos letais do Reator 4.

​O impacto perfurou o teto do “sarcófago” moderno — uma obra de engenharia de 1,5 bilhão de euros financiada pela comunidade internacional — e provocou incêndios que duraram semanas. Embora a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) tenha confirmado que não houve um vazamento imediato de radiação para a atmosfera, o incidente comprometeu a função de isolamento da estrutura. Especialistas alertam que o dano pode acelerar a degradação dos materiais radioativos internos, que estão se transformando em poeira altamente perigosa.

O peso de 40 anos de medo

O acidente original, ocorrido em 26 de abril de 1986, moldou a percepção mundial sobre a energia atômica. Ao lado de Fukushima (2011), Tchernóbil é o único evento a atingir o nível 7 — o máximo — na Escala Internacional de Eventos Nucleares. Se em 1986 o inimigo era a falha técnica e o segredo de Estado soviético, hoje o risco é o que autoridades ucranianas classificam como “terrorismo nuclear”.

​O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, denunciou o ataque como uma ameaça global, enquanto o Kremlin negou a responsabilidade. No entanto, observadores da AIEA no local relataram explosões e a presença de sistemas não tripulados na zona de exclusão, reforçando a insegurança de instalações que nunca foram projetadas para serem campos de batalha.

Energia nuclear sob suspeita

A fragilidade de Tchernóbil e o cerco à Usina de Zaporíjia — a maior da Europa — reacenderam o debate sobre a viabilidade da energia nuclear. Em um momento onde o mundo busca alternativas aos combustíveis fósseis, a imagem de um buraco no teto do sarcófago de Tchernóbil serve como um lembrete sombrio.

​Para os “Samosely” — os poucos residentes que se recusaram a abandonar a zona de exclusão e vivem da terra contaminada — e para os engenheiros que monitoram o local, o fantasma de 1986 nunca partiu. Agora, com a guerra batendo à porta do reator, o mundo observa com apreensão se a estrutura conseguirá resistir a mais 40 anos de incertezas ou se a história está condenada a se repetir sob o fogo dos drones modernos.

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