A explosão na demanda por novos empreendimentos de alto consumo energético gerou um gargalo inédito na infraestrutura brasileira. Projetos bilionários de data centers, impulsionados pela expansão da inteligência artificial, e indústrias de base agora travam uma disputa acirrada pelo acesso à rede elétrica nacional, com filas de espera que já chegam a cinco anos para a liberação de conexões de alta voltagem.
O epicentro dessa corrida tecnológica e estrutural concentra-se nos estados de São Paulo e Ceará. Juntos, eles reúnem a maior fatia dos pedidos de acesso à Rede Básica do Sistema Interligado Nacional (SIN). Somente o estado paulista acumula cerca de 20 solicitações que somam 3,9 gigawatts (GW). Os projetos de centros de dados demandam cargas massivas — com pedidos individuais de conexão que alcançam até 300 megawatts (MW), o equivalente ao consumo de cidades inteiras. No Ceará, um único grande empreendimento planejado projeta consumir perto de 1 GW, rivalizando com a demanda de todo o estado.
O novo leilão da discórdia: quem paga mais leva
Para tentar organizar a avalanche de pedidos e extinguir o antigo modelo de atendimento por ordem cronológica de chegada, o governo federal reformulou as regras de acesso por meio de diretrizes regulatórias aplicadas pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) e pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).
As novas regras eliminam a necessidade de portarias prévias do Ministério de Minas e Energia (MME), permitindo que as empresas acionem o ONS diretamente. Contudo, o ponto central que preocupa a indústria tradicional é a criação das chamadas Temporadas de Acesso.
- Como funcionará: Nos pontos da rede elétrica onde houver saturação e a busca por conexões superar a capacidade física de escoamento, o ONS adotará um mecanismo competitivo baseado em leilão eletrônico.
- O critério: Leva a concessão quem oferecer o maior bônus financeiro por quilowatt (kW) de capacidade.
- Cronograma: O ONS prevê divulgar a lista final de empresas habilitadas em meados de setembro, com os primeiros leilões eletrônicos marcados para o início de outubro. Esta primeira rodada definirá o direito de conexão para o triênio entre 2027 e 2029.
Indústria de base teme perda de competitividade
O setor industrial tradicional, representado por entidades como a Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e Consumidores Livres (Abrace), acompanha a mudança com cautela e preocupação. Setores como a siderurgia, química e metalurgia temem ser sufocados financeiramente pelos gigantes da tecnologia global (as chamadas hyperscalers), que detêm maior liquidez de caixa para arcar com os lances dos bônus de conexão.
A preocupação é que o custo final da energia e da infraestrutura suba a patamares inviáveis para as fábricas nacionais, enquanto os operadores de data centers enxergam no Brasil um porto seguro ideal devido à matriz elétrica amplamente renovável (hídrica, eólica e solar).
O Gargalo Técnico: A magnitude dos novos projetos de tecnologia alterou o patamar da própria engenharia elétrica no país. Conexões de 230 kV e 500 kV, antes restritas a grandes indústrias pesadas ou geradoras, tornaram-se o padrão exigido pelo ONS para os novos complexos de processamento de dados.
Além da barreira física de transmissão, o setor de tecnologia lida com incertezas fiscais. O Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), que dava fôlego tributário ao setor, perdeu a validade no início do ano, transferindo o foco das negociações para incentivos de ICMS estaduais e aumentando o peso do custo da energia como o divisor de águas para definir quais projetos sairão do papel.
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