O ambiente escolar, historicamente visto como um espaço de acolhimento, humanidade e cultivo do respeito mútuo, tem enfrentado uma realidade alarmante nos bastidores de suas estruturas administrativas e pedagógicas. Casos de assédio moral contra profissionais da educação deixaram de ser tratados como meros desentendimentos de rotina e passaram a ser discutidos pelo que realmente são: uma grave forma de violência psicológica no trabalho que adoece trabalhadores e compromete diretamente a qualidade do ensino.
Dados divulgados por análises de indicadores nacionais revelam que a violência psicológica e moral representa cerca de 23,8% dos episódios de agressão registrados no ambiente escolar brasileiro. O impacto na carreira dos servidores públicos e privados é direto. Levantamentos recentes sobre o funcionalismo público apontam que aproximadamente 31% dos afastamentos de servidores de suas funções são decorrentes de problemas ligados à saúde mental. Na educação, os representantes sindicais alertam que o esgotamento é agravado pela sobrecarga de funções e pela cobrança desmedida, que muitas vezes assume contornos de perseguição política ou pessoal.
Casos recentes e o monitoramento digital
O cenário tem mobilizado debates em diversos estados. No início de maio de 2026, a Secretaria Estadual de Educação (Seed) de Roraima precisou intervir após denúncias formais de assédio moral e perseguição contra servidores na Escola Estadual Antônio Augusto Martins, no Cantá, além de relatos semelhantes envolvendo funcionários de uma unidade militarizada.
Paralelamente, confederações e sindicatos da categoria, como a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), alertam para uma nova vertente do problema: o assédio moral institucionalizado por meio de plataformas digitais de monitoramento pedagógico. Sem a devida regulamentação, o uso dessas ferramentas tecnológicas em redes estaduais como São Paulo, Paraná e Rio de Janeiro tem sido apontado por especialistas como um mecanismo de pressão excessiva e controle punitivo contra o corpo docente.
A violência silenciosa
Especialistas e juristas reiteram que o assédio moral não precisa de gritos para se consolidar. Ele se revela de forma sutil, crônica e repetitiva em atitudes que isolam, silenciam e desqualificam a vítima.
A prática se manifesta em ações diárias: na exclusão proposital de um profissional de reuniões importantes, no desprezo disfarçado de “brincadeira”, na crítica constante direcionada a apenas uma pessoa, na retirada arbitrária de funções e na sobrecarga deliberada. Outra face comum dessa violência ocorre quando a chefia ou os pares ignoram sistematicamente a fala de um trabalhador, mas validam e elogiam a mesmíssima ideia quando dita por outra pessoa, fazendo a vítima duvidar de sua própria capacidade técnica e intelectual.
Tratar essas situações como “mimimi” ou mero desentendimento cotidiano contribui diretamente para a perpetuação do ciclo de medo e para a destruição da autoestima dos profissionais da educação. Romper o silêncio e denunciar as práticas abusivas junto aos canais competentes e sindicatos é o caminho para lembrar que a dignidade no trabalho não se trata de um favor concedido pelas chefias — é um direito fundamental assegurado por lei.





