A cadeia produtiva da cevada no Brasil vive um cenário de paradoxo em 2026. De um lado, o campo celebra avanços tecnológicos e colheitas históricas; do outro, a indústria cervejeira lida com uma retração significativa no consumo doméstico, impulsionada por mudanças de hábitos geracionais e fatores climáticos atípicos.
Recorde nas lavouras e desafios de qualidade
Segundo dados consolidados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e pela Embrapa, a produção brasileira de cevada atingiu a marca recorde de 516,5 mil toneladas na safra mais recente. Esse crescimento é fruto de:
- Melhoramento Genético: Cultivares mais adaptadas ao clima do Sul do país e com maior resistência a doenças.
- Investimento em Maltarias: A expansão de unidades industriais no Paraná e Rio Grande do Sul incentivou o aumento da área plantada.
- Manejo de Precisão: O uso de inteligência analítica para controlar o teor de proteína nos grãos, essencial para a malteação.
Apesar do volume, o setor ainda luta contra a instabilidade climática. No Rio Grande do Sul, por exemplo, o índice de aproveitamento dos grãos para a indústria malteira oscila conforme o regime de chuvas, exigindo que o país ainda importe parte do malte utilizado.
O alerta: queda de 19,4% no consumo
Se no campo o ritmo é acelerado, nos copos a realidade é diferente. Em 2025, o consumo de cerveja no Brasil registrou uma queda de 19,4%, segundo o Monitor Mercantil. Analistas apontam três causas principais para esse fenômeno em 2026:
- Mudança de Hábito (Saudabilidade): Há um crescimento expressivo de 45,7% na busca por suplementos e bebidas ligadas ao bem-estar, com gerações como os Millennials reduzindo drasticamente o consumo de álcool (retração de até 35%).
- Fatores Climáticos: Invernos mais rigorosos e prolongados em 2025 impactaram diretamente as vendas da Ambev e outras gigantes do setor, que dependem das altas temperaturas para impulsionar o volume.
- Economia e Preços: A implementação do Imposto Seletivo (conhecido como “imposto do pecado”) e a inflação de insumos elevaram o preço final da “loira gelada” no varejo.
O futuro: Geração Z e a Copa do Mundo
Nem tudo são notícias ruins para as cervejarias. O mercado observa com curiosidade a Geração Z, o único grupo que registrou alta (44,3%) no consumo doméstico em 2025, embora com preferência por produtos diferenciados e versões sem álcool.
Para 2026, a esperança da indústria reside no calendário. A expectativa é que a Copa do Mundo, com jogos em horários favoráveis ao happy hour brasileiro, somada a um número maior de feriados prolongados, consiga reaquecer a demanda e equilibrar a balança com a superprodução de cevada que vem do campo.
Nota do Jornalista: A sustentabilidade do setor agora depende de um ajuste fino entre a oferta recorde de grãos e uma demanda que exige, cada vez mais, qualidade e inovação em vez de apenas quantidade.




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