Gestão de Ratinho Jr. amplia terceirização e militarização no Paraná sob críticas de precarização
O sistema educacional do Paraná atravessa uma transformação estrutural que divide opiniões entre o Palácio Iguaçu e as salas de aula. Sob a gestão de Ratinho Jr. (PSD), o estado consolidou modelos que transferem a gestão administrativa para empresas privadas, expandem a presença de militares na reserva e promovem programas de intercâmbio. Enquanto o governo celebra índices de aprovação, sindicatos e especialistas questionam se o investimento público está servindo à educação ou ao lucro empresarial.
O avanço do “Parceiro da Escola” e a presença militar
O programa Parceiro da Escola, oficializado pela Lei 22.006/2024, é o pilar da estratégia de terceirização. O modelo delega a gestão administrativa e de infraestrutura de escolas estaduais a empresas privadas. Em 2025, o governo expandiu o projeto para dezenas de colégios, apesar da resistência em diversas consultas públicas.
Paralelamente, a rede de escolas cívico-militares segue em crescimento. Nelas, policiais militares da reserva assumem funções de “monitor” ou “diretor cívico-militar”. O ponto de maior controvérsia reside na remuneração: esses profissionais recebem gratificações que variam de R$ 3.000 a mais de R$ 9.000, acumulando esses valores com suas aposentadorias.
Ganhando o Mundo: Vitrine versus Realidade
O programa de intercâmbio Ganhando o Mundo é a principal vitrine internacional do governo. Com um investimento previsto de R$ 403 milhões até 2026, o projeto envia milhares de estudantes para países como Canadá e Estados Unidos.
Embora o impacto na vida dos alunos selecionados seja inegável, críticos apontam uma disparidade: o montante gasto em intercâmbios pontuais poderia ser aplicado na infraestrutura básica de escolas que ainda sofrem com falta de manutenção ou na reposição salarial de professores PSS (Processo Seletivo Simplificado) e efetivos.
Os Dois Lados da Moeda
| Perspectiva do Governo (Estado) | Críticas (Sindicatos e Oposição) |
|---|---|
| Eficiência: Libera diretores do trabalho burocrático para focarem no pedagógico. | Privatização: Transforma o orçamento da educação em lucro para grupos empresariais. |
| Aprovação: Pesquisas internas apontam mais de 80% de satisfação entre pais e alunos. | Precarização: Substituição de funcionários de carreira por terceirizados com menos direitos. |
| Disciplina: Escolas cívico-militares reduziriam a violência e a evasão escolar. | Custo Elevado: Pagamento de gratificações a militares enquanto o piso do magistério é motivo de disputa. |
Quem realmente ganha?
A pergunta que ecoa nos corredores da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep) e nas mobilizações da APP-Sindicato é sobre a eficiência desse gasto. No final de 2025, denúncias de assédio moral e problemas de infraestrutura em escolas geridas pelo grupo vencedor de grandes lotes do “Parceiro da Escola” — que tem entre seus acionistas figuras de renome no mercado financeiro — reacenderam o debate.
Para os educadores, a solução “viável” passaria por:
- Valorização Profissional: Reposição salarial imediata e fim da rotatividade do regime PSS.
- Investimento Direto: Aplicação de recursos na rede própria, sem intermediários privados.
- Gestão Democrática: Respeito às decisões das comunidades escolares que votaram contra a militarização e a terceirização.
Enquanto o governo mantém o curso de sua política liberal para o ensino, o Paraná se torna um laboratório nacional de uma educação que, se por um lado ganha o mundo com intercâmbios, por outro, vê sua base estrutural ser entregue à iniciativa privada.
Se os recursos destinados aos programas de “vitrine” e terceirização da gestão Ratinho Jr. fossem convertidos em reajuste direto para os professores, o impacto seria significativo.
Com base nos dados de 2025 e projeções para 2026, o valor somado dos principais programas chega a cerca de R$ 1,8 bilhão. Considerando que o impacto anual de um reajuste geral de 11% na folha de pagamento do estado é de aproximadamente R$ 450 milhões, o redirecionamento dessas verbas poderia garantir um aumento acumulado de quase 40% para a categoria.
O Cálculo do Direcionamento
Para entender a magnitude desses gastos frente ao salário do magistério, veja a composição dos valores que hoje deixam de ir para o contracheque dos servidores:
- Terceirização (Parceiro da Escola): O governo planeja repassar até R$ 1,3 bilhão para empresas privadas gerirem as escolas.
- Intercâmbios (Ganhando o Mundo): O investimento total no programa até 2026 é de R$ 403 milhões.
- Militarização (Gratificações): O custo anual com as gratificações especiais para militares da reserva nas escolas cívico-militares ultrapassa os R$ 30 milhões.
A Escolha Política
O debate central não é a falta de verba, mas a prioridade orçamentária. Enquanto o governo argumenta que esses gastos trazem modernização e eficiência administrativa, a categoria docente defende que a “verdadeira modernização” começa pela fixação de talentos através de salários competitivos.
Atualmente, um professor em início de carreira no Paraná recebe cerca de R$ 4.420,00 (para dois padrões), valor que a APP-Sindicato tenta equiparar aos R$ 7.616,00 recebidos por outros quadros técnicos do Executivo. Se os valores da terceirização fossem aplicados na base, essa equiparação estaria muito mais próxima de se tornar realidade sem comprometer o teto de gastos.




