O agravamento do conflito no Oriente Médio e o bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz forçaram a Agência Internacional de Energia (AIE) a revisar drasticamente suas projeções para 2026. Em relatório divulgado em abril, a agência alertou que a combinação de escassez de oferta e preços recordes está causando uma “destruição de demanda” em escala global, com uma retração no consumo que não era vista desde o auge da crise de Covid-19.
O choque nos números
De acordo com os novos dados da AIE, a demanda global por petróleo deve contrair 80 mil barris por dia (bpd) em 2026. O cenário é um balde de água fria em comparação ao relatório do mês anterior, que ainda previa um crescimento de 730 mil bpd.
O ponto mais crítico ocorre agora, no segundo trimestre de 2026, onde a queda projetada é de 1,5 milhão de bpd — o recuo trimestral mais acentuado desde 2020.
- Preço do barril físico: Atingiu picos próximos de US$ 150, descolando-se dos mercados de futuros devido à busca desesperada de países importadores por cargas imediatas.
- Oferta em queda: Em março, a oferta global despencou 10,1 milhões de bpd, reflexo direto dos ataques a infraestruturas e da paralisia no tráfego de petroleiros pelo Golfo Pérsico.
Os setores mais atingidos
A alta de preços e a insegurança logística estão mudando o comportamento de consumo em diversas frentes:
- Aviação: O cancelamento em massa de voos no Oriente Médio, partes da Ásia e Europa derrubou o consumo de querosene de aviação (jet fuel).
- Petroquímica: Na Ásia, produtores reduziram as taxas de operação devido à falta de nafta e GLP.
- Consumo Doméstico: O aumento no custo do gás liquefeito de petróleo (GLP) já impacta famílias e pequenas empresas, gerando temores sobre o aumento da “pobreza energética”.
O fator Estreito de Ormuz
O controle ou bloqueio do Estreito de Ormuz é o centro da crise. Por essa via passam diariamente cerca de 20 milhões de barris, o equivalente a 20% do consumo mundial.
“A destruição da demanda vai se espalhar à medida que a escassez e os preços elevados persistirem”, afirma o relatório da AIE.
Enquanto países como os Estados Unidos e o Brasil conseguem mitigar parte dos impactos devido à produção doméstica e localização geográfica (fora da rota de Ormuz), as economias dependentes de importação na Ásia e Europa enfrentam o maior desafio logístico e inflacionário das últimas décadas.
O mercado agora monitora se a interrupção no estreito será medida em semanas ou meses, o que determinará se o mundo entrará em um período prolongado de racionamento energético involuntário.




