Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro para financiar filme sobre Jair Bolsonaro, revelam áudios vazados
O cenário político e o mercado audiovisual brasileiro foram sacudidos nos últimos dias após o vazamento de áudios e mensagens de WhatsApp obtidos pelo site The Intercept Brasil. Os registros expõem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobrando parcelas em atraso do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. O objetivo do repasse milionário, que totalizaria cerca de 24 milhões de dólares (aproximadamente R$ 134 milhões), era custear a superprodução Dark Horse (“Azarão”), uma cinebiografia que narra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro e o atentado à faca sofrido por ele em 2018.
A magnitude financeira da operação chama a atenção por desafiar a própria realidade do cinema nacional. Para que o investidor Daniel Vorcaro recuperasse os R$ 134 milhões solicitados, o longa-metragem precisaria arrecadar no mínimo R$ 300 milhões nas bilheterias. Esse montante equivale a 40% a mais do que a soma de todos os filmes brasileiros lançados nos cinemas ao longo de um ano inteiro (cerca de R$ 215 milhões) ou quase o dobro da maior bilheteria histórica do cinema nacional, pertencente a Minha Mãe É uma Peça 3.
Detalhes dos bastidores e as investigações
As investigações jornalísticas e o avanço das apurações do Ministério Público detalham que, deste montante negociado, pelo menos R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos por Vorcaro entre fevereiro e maio de 2025. Os repasses teriam sido efetuados de forma indireta por meio da empresa Entre Investimentos para um fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos, chamado Havengate Development Fund LP, ligado a aliados do deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP).
A revelação caiu como uma bomba na pré-campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. As conversas revelam uma proximidade íntima; em uma das mensagens, o senador escreve: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”. O diálogo ocorreu em novembro de 2025, apenas um dia antes de Daniel Vorcaro ser preso sob a acusação de operar um esquema bilionário de fraudes financeiras.
Para além das polêmicas de financiamento que já se encontram sob análise das autoridades, a produção de Dark Horse também enfrenta turbulências internas. Relatórios recentes de canais de denúncia trabalhistas apontaram que figurantes e técnicos que participaram das gravações em São Paulo relataram condições precárias de trabalho, incluindo atrasos em pagamentos, alimentação insuficiente, fornecimento de comida estragada e revistas consideradas corporais abusivas.
O que dizem os envolvidos
O projeto de Dark Horse foi idealizado e roteirizado pelo deputado federal e ex-secretário de Cultura Mario Frias (PL-SP), atuando também como produtor-executivo, e conta com o ator norte-americano Jim Caviezel no papel principal de Jair Bolsonaro.
A produtora responsável pelo longa, a GOUP Entertainment, manifestou-se negando ter recebido qualquer recurso financeiro vindo de Daniel Vorcaro ou de empresas ligadas a ele, sustentando que a produção é custeada apenas por investimentos estrangeiros. Mario Frias também declarou que não há “um centavo” do ex-banqueiro no projeto.
Por sua vez, o senador Flávio Bolsonaro confirmou publicamente ter solicitado o patrocínio a Vorcaro, mas defendeu a legalidade do ato. Em nota oficial enviada à imprensa, o parlamentar minimizou a gravidade do escândalo político: “No nosso caso, o que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai. Zero de dinheiro público. Zero de lei Rouanet”, concluiu. Os desdobramentos financeiros do caso e a apuração sobre o destino real dos recursos seguem sendo investigados pela Polícia Federal e pelo Ministério Público.





