Deputados e STF centralizam debate sobre repasse de R$ 4,6 milhões a entidades ligadas a filme de Bolsonaro

O direcionamento de emendas parlamentares para entidades vinculadas à produção de “Dark Horse”, cinebiografia sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), entrou no centro de uma disputa política e jurídica que envolve o Supremo Tribunal Federal (STF). Ao menos R$ 4,6 milhões em verbas federais foram destinados a duas instituições presididas pela empresária Karina Gama, que também é sócia-administradora da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo longa-metragem.
A destinação dos recursos gerou suspeitas e motivou uma apuração separada conduzida pelo ministro do STF, Flávio Dino, relator das ações que analisam a transparência e a rastreabilidade das emendas parlamentares. A investigação foi aberta após uma provocação da deputada Tabata Amaral (PSB-SP), que levantou o questionamento se a verba pública estaria financiando indiretamente a obra cinematográfica.

Os repasses federais e os projetos declarados

As transferências de recursos de deputados federais do PL se dividem entre a Academia Nacional de Cultura (ANC) e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ambas sob a gestão da empresária. De acordo com os registros das emendas:

  • Mario Frias (PL-SP): Direcionou R$ 2 milhões ao ICB. Parte do montante (R$ 1 milhão) tinha como objeto um programa de empreendedorismo, enquanto o restante visava o projeto esportivo “Lutando pela Vida”, em Pirassununga (SP). O STF tenta intimar o parlamentar desde o fim de março para prestar esclarecimentos.
  • Bia Kicis (PL-DF) e Marcos Pollon (PL-MS): Enviaram R$ 150 mil e R$ 1 milhão, respectivamente, para a ANC.
  • Alexandre Ramagem (PL-RJ) e Carla Zambelli (PL-SP): Direcionaram, juntos, R$ 1,5 milhão (R$ 500 mil de Ramagem e R$ 1 milhão de Zambelli) para a mesma academia cultural.
    O plano de trabalho apresentado para justificar as verbas enviadas à ANC envolve a produção de uma série documental intitulada “Heróis Nacionais – filhos do Brasil que não se rende”, focada na história da colonização do país.

Desdobramentos em São Paulo e investigações paralelas

O escopo da fiscalização sobre o ecossistema financeiro que envolve a produção expandiu-se também para o âmbito estadual e municipal. Na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), deputados estaduais destinaram pouco mais de R$ 700 mil para o ICB e para a ANC entre os anos de 2023 e 2026. Entre as indicações, constam aportes de parlamentares como Valéria Bolsonaro (PL), Lucas Bove (PL), Gil Diniz (PL) e Luiz Fernando (PT).
No entanto, o governo do estado de São Paulo confirmou que suspendeu a execução e o repasse dessas verbas devido a pendências documentais e restrições técnicas apresentadas pela entidade beneficiária. Na capital paulista, o ICB também havia firmado um termo de cooperação de R$ 108 milhões com a prefeitura local para instalação de pontos de Wi-Fi, o que ampliou o monitoramento das finanças das organizações ligadas à Karina Gama.
Paralelamente, a produção de “Dark Horse” enfrenta questionamentos sobre aportes privados. O ex-deputado Eduardo Bolsonaro admitiu recentemente em suas redes sociais ter realizado um investimento de US$ 50 mil na produção executiva, corrigindo posicionamentos anteriores. A Polícia Federal monitora se fluxos financeiros paralelos de fundos baseados no exterior possuem correlação com os envolvidos no projeto.

O que dizem os citados

Os parlamentares envolvidos negam veementemente qualquer irregularidade ou desvio de finalidade na destinação dos recursos. A assessoria de Mario Frias defendeu que todas as emendas seguiram os ritos estritamente legais, apresentando documentação da Câmara que atesta a regularidade formal dos planos de trabalho.
Os deputados federais e estaduais sustentam que as emendas possuem objetos estritos e lícitos — focados em cultura, esporte e inclusão digital —, sem qualquer vinculação financeira com a cinebiografia de Jair Bolsonaro. A defesa das entidades geridas por Karina Gama afirma que os recursos recebidos são aplicados exclusivamente nas metas aprovadas pelos órgãos de controle.

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