O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) utilizou suas redes sociais nesta terça-feira (19) para divulgar o primeiro trailer oficial de Dark Horse, a aguardada e controversa cinebiografia inspirada na trajetória política de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A peça publicitária, que possui cerca de dois minutos e meio de duração e foi estilizada com a estética de um conteúdo vazado, traz diálogos falados em inglês e destaca a emblemática frase de campanha do ex-mandatário: “Brazil above everything, God above all” (Brasil acima de tudo, Deus acima de todos).
A divulgação do teaser, inicialmente prevista para o próximo domingo, foi antecipada pela cúpula do Partido Liberal (PL) como uma estratégia de contenção de danos. O objetivo dos parlamentares da legenda é comprovar que o projeto cinematográfico de fato existe e tentar desviar o foco do noticiário das recentes denúncias que envolvem os bastidores da produção e o seu financiamento.
Trama política e contornos divinos
Dirigido pelo cineasta norte-americano Cyrus Nowrasteh e com roteiro baseado em uma história escrita pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), o longa-metragem adota o tom dramático e a identidade visual típicos dos thrillers políticos de Hollywood. O papel de Jair Bolsonaro é interpretado pelo ator internacional Jim Caviezel, mundialmente conhecido por viver Jesus Cristo no filme A Paixão de Cristo (2004). O elenco também conta com Camille Guaty no papel da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, retratando o casamento e a vida conjugal do casal.
O enredo central do filme reconstrói a ascensão política de Bolsonaro, culminando na eleição de 2018. O trailer dá grande destaque ao atentado sofrido pelo então candidato em Juiz de Fora (MG), sugerindo a existência de um complô e o planejamento prévio da facada por Adélio Bispo. Sob a narrativa do “herói que lutou contra um sistema corrupto que falhou em silenciá-lo”, o roteiro ainda adiciona elementos de teor místico e intervenção divina, como uma personagem misteriosa que entrega pílulas caseiras e concede “permissão espiritual” para que o político retorne aos debates após sair da UTI.
Investigação no TSE e crise nos bastidores
Apesar do forte apelo entre apoiadores nas redes sociais, o lançamento do trailer ocorre sob uma pesada sombra jurídica e política. Horas após a divulgação do vídeo, integrantes do Partido dos Trabalhadores (PT) e o grupo de advogados Prerrogativas acionaram o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para pedir uma investigação minuciosa sobre a estrutura financeira de Dark Horse.
A representação busca impedir o lançamento do filme, alegando que uma superprodução desse porte, estrelada por um ator internacional e programada estrategicamente para o período que antecede as eleições, funcionaria como um poderoso ativo de campanha eleitoral paralelo, ferindo a igualdade de condições entre os candidatos. A ação baseia-se em um precedente de 2022, quando o TSE barrou a exibição de um documentário da produtora Brasil Paralelo às vésperas do segundo turno.
As suspeitas de irregularidades ganharam força após o vazamento de áudios em que o senador Flávio Bolsonaro supostamente cobra repasses financeiros do banqueiro Daniel Vorcaro. Investigações jornalísticas apontam que Vorcaro teria transferido cerca de R$ 61 milhões para a produção do longa entre fevereiro e maio de 2025. O pedido enviado ao TSE também solicita o envolvimento da Polícia Federal, do Banco Central e do Coaf para apurar possíveis crimes de caixa dois, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.
Embora os produtores ainda busquem fechar acordos de distribuição e o filme continue sem uma data oficial de estreia nos cinemas brasileiros, Dark Horse já se consolida como o epicentro de uma intensa batalha que mistura cinema, apelo ideológico e direito eleitoral.





