Suspeita de fraude em leilão do Hospital Beneficência Portuguesa liga família Vorcaro e controladores do Banco Master a arrematação em Porto Alegre

​Uma teia de empresas, operadores e movimentações financeiras coloca sob suspeita a arrematação do tradicional prédio do Hospital Beneficência Portuguesa, o segundo mais antigo de Porto Alegre (RS). O imóvel centenário, avaliado judicialmente em mais de R$ 70 milhões, foi repassado por R$ 41 milhões em meio a indícios de manipulação de ações trabalhistas e manobras societárias para viabilizar a negociação.

​Investigações e apurações jornalísticas indicam que por trás do arremate está uma estrutura ligada ao empresário Henrique Vorcaro e ao seu filho, Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master — ambos alvos da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal para apurar fraudes financeiras e ocultação de bens que superam a casa dos bilhões de reais.

​Operadores cruzados e a arrematação judicial

​A aquisição do imóvel histórico da capital gaúcha foi efetuada nominalmente pela AFC Holding, presidida pelo empresário Thiago Assumpção Henriques. Henriques figura como sócio em diversos empreendimentos de Natália Vorcaro Zettel — irmã de Daniel e filha de Henrique Vorcaro —, que é casada com Fabiano Zettel, apontado pela PF como um dos principais operadores operacionais e financeiros da família.

​O certame foi realizado no âmbito da Justiça do Trabalho sob a justificativa de quitar dívidas trabalhistas acumuladas pelo hospital, que encerrou os atendimentos em 2022. O valor acordado previa um pagamento inicial de R$ 11 milhões e o restante parcelado em 30 prestações de R$ 1 milhão. No entanto, o processo de leilão sofreu contestação judicial devido a indícios de fraude no direcionamento das ações e subavaliação do patrimônio, levando o caso a disputas em instâncias superiores, como o Superior Tribunal de Justiça (STJ).

​Padrão de atuação e desdobramentos policiais

​A triangulação utilizada no leilão do Beneficência Portuguesa repete estratégias observadas em outros negócios do grupo. Henrique Vorcaro e operadores vinculados à holding familiar já haviam tentado articular, em anos anteriores, a compra do Hospital Arcanjo São Miguel, em Gramado (RS), utilizando empresas intermediárias e participações ocultas sem figurar formalmente nos quadros societários.

​As suspeitas em torno da aquisição em Porto Alegre ganharam novos contornos com o avanço da Operação Compliance Zero. As apurações da Polícia Federal revelaram o uso de “empresas de prateleira”, estruturas societárias interpostas e simulação de negócios imobiliários para ocultação de patrimônio e lavagem de dinheiro decorrente das operações do Banco Master. Enquanto a legalidade da alienação do imóvel segue sob questionamento na Justiça, a posse do prédio permanece congelada sem autorização para intervenções estruturais até o trânsito em julgado dos recursos.


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