BRASÍLIA — Investigações internacionais baseadas na interceptação e decodificação de aplicativos de mensagens criptografadas (como o Sky ECC e o EncroChat) expuseram os bastidores de uma bilionária sociedade no narcotráfico internacional. No centro da rede criminosa está o ex-major da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul, Sérgio Roberto de Carvalho — conhecido como o “Pablo Escobar brasileiro” —, atuando em parceria direta com grandes operadores do crime organizado na Bélgica e na Europa continental.
As mensagens interceptadas revelam que a aliança movimentou centenas de milhões de euros através do envio massivo de toneladas de cocaína pura a partir de portos da América do Sul, como o Porto de Paranaguá (PR), com destino principal ao Porto de Antuérpia, na Bélgica — considerado a principal porta de entrada da droga no continente europeu.
Esquema sofisticado e logística internacional
Segundo relatórios policiais e autoridades judiciais europeias, o ex-militar brasileiro operava como um dos maiores fornecedores independentes de cocaína do mundo, sem submissão direta às facções tradicionais da América Latina. A quebra do sigilo digital revelou conversas detalhadas sobre:
- Logística de remessa: Uso da tática de rip-on/rip-off (inserção de drogas em contêineres comerciais sem o conhecimento dos proprietários das cargas) e navios cargueiros dedicados.
- Lavagem de dinheiro: Operações complexas de remessa de divisas que utilizavam redes de empresas de fachada na Europa, transações bancárias maquiadas e vultosas quantias em dinheiro vivo — como os 12 milhões de euros encontrados pela polícia em uma van abandonada pelo grupo em Lisboa.
- Divisão de lucros: Divisão de cotas milionárias sobre os carregamentos distribuídos nos mercados belga, holandês e espanhol.
Histórico de fugas e extradição
A trajetória de Sérgio Roberto de Carvalho é marcada pelo uso de ao menos dez identidades falsas. Em 2020, ao ter a prisão decretada na Espanha sob a falsa identidade de “Paul Wouter” (empresário nascido no Suriname), seus advogados chegaram a apresentar um atestado de óbito falso por Covid-19 para simular sua morte e encerrar o processo.
Após ser desmascarado pela Polícia Federal brasileira, o ex-major permaneceu foragido até junho de 2022, quando foi localizado e preso em um hotel de luxo em Budapeste, na Hungria. Em meados de 2023, após disputas judiciais entre Brasil, Estados Unidos e países europeus, a Justiça húngara autorizou sua extradição para a Bélgica, onde o ex-oficial responde aos processos criminais e cumpre pena por liderar o esquema de tráfico e lavagem de capitais.
Descubra mais sobre O expresso Br
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.



