Na década de 1980, o nova-iorquino Hoyt Richards tornou-se um dos rostos mais reconhecidos e cobiçados do planeta. Estrela de campanhas para marcas como Ralph Lauren, Donna Karan, Versace e Valentino, ele é considerado por historiadores de moda o primeiro “supermodelo masculino” da história. No entanto, por trás do glamour das passarelas e dos cachês milionários, Richards viveu por duas décadas prisioneiro de uma teia de manipulação psicológica e financeira sob o comando de um grupo secreto e apocalíptico: a seita Eternal Values.
O grupo era liderado por Frederick von Mierers (nome artístico de Freddy Miers), um ex-modelo e figura frequente na alta sociedade de Nova York. Von Mierers afirmava não ser humano, mas sim uma “entidade extraterrestre” vinda do sistema estelar de Arcturus. Segundo sua doutrina, ele havia assumido um corpo humano para recrutar e treinar uma elite estética e intelectual encarregada de liderar a humanidade na “Nova Era”. Com a premissa de criar uma comunidade espiritual exclusiva, o líder recrutava quase que exclusivamente jovens modelos atraentes, herdeiros e empresários influentes.
Doutrinação, isolamento e controle financeiro
A aproximação entre Von Mierers e Richards começou ainda na juventude do modelo, intensificando-se à medida que a carreira de Hoyt decolava. Sob o pretexto de elevados ideais espirituais e desapego material, o líder convenceu Richards a entregar praticamente todos os seus ganhos profissionais. O modelo estima ter repassado entre 4 e 5 milhões de dólares ao longo dos anos para financiar as atividades do culto, a venda de cassetes de autoajuda e o comércio de pedras preciosas mantido pelo grupo.
Por dentro, a Eternal Values impunha regras rígidas de conduta: proibição de bebidas alcoólicas, drogas, tabaco e relacionamentos afetivos fora da seita. Para manter o controle absoluto, Von Mierers promovia humilhações públicas e encorajava o rompimento de laços com familiares e amigos. Richards chegou a dormir no chão do apartamento do líder enquanto sustentava o grupo com contratos de publicidade internacionais.
A derrocada do líder e as revelações recentes
Frederick von Mierers faleceu em 1990 devido a complicações decorrentes da Aids, pouco antes de uma grande reportagem investigativa da revista Vanity Fair expor as entranhas da seita. Mesmo após a morte de seu criador, o grupo continuou operando por quase uma década sob o comando de membros remanescentes.
A libertação definitiva de Hoyt Richards ocorreu no final dos anos 1990, quando ele iniciou um relacionamento secreto com Donna, quebrando a regra fundamental de isolamento impostas pelo grupo.
O caso ganhou enorme repercussão internacional recentemente com o lançamento da série documental Bring Me the Beauties: A Model Cult, dirigida por Chris Smith para a HBO. A produção traz depoimentos inéditos de sobreviventes e detalha os mecanismos de coerção usados por Von Mierers.
Hoje, aos 64 anos, Richards atua como ator, produtor e palestrante na organização sem fins lucrativos Living Cult Free, dedicada a apoiar vítimas de manipulação psicológica e conscientizar o público sobre os perigos da doutrinação coercitiva. Em um desfecho pessoal marcante, Richards reconectou-se com Donna, a mulher que o ajudou a romper com a seita, com quem tem casamento planejado, consolidando sua trajetória de reconstrução e sobrevivência.
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