A varejista Casas Bahia acendeu um sinal de alerta vermelho no mercado financeiro ao divulgar o balanço do segundo trimestre de 2026 com um prejuízo líquido recorde de R$ 10,1 bilhões. Em meio à deterioração de sua situação de caixa, à forte restrição de crédito e ao acúmulo de oito trimestres consecutivos de perdas, a administração da companhia passou a admitir abertamente a possibilidade de ingressar com um novo pedido de recuperação extrajudicial ou recorrer a uma recuperação judicial.
A gravidade do quadro contábil — que levou o patrimônio líquido da empresa a um patamar negativo de R$ 8,1 bilhões — motivou a auditoria independente EY (Ernst & Young) a se abster de emitir uma conclusão sobre as demonstrações financeiras. A consultoria apontou a existência de “incerteza relevante” sobre a capacidade de continuidade operacional do grupo.
O impacto dos R$ 10,1 bilhões: ajuste de contas e corte operacional
Embora a cifra bilionária impressione, a empresa destaca que cerca de R$ 9,1 bilhões da perda total decorrem de efeitos contábeis não recorrentes, ou seja, de ajustes de valor que não representam saída imediata de dinheiro do caixa no período. O prejuízo líquido ajustado da rede ficou em R$ 978 milhões.
Entre as principais baixas e reavaliações do balanço, destacam-se:
- Créditos tributários diferidos: Baixa de aproximadamente R$ 5,7 bilhões de impostos diferidos após a revisão de projeções de rentabilidade futura.
- Provisões contratuais: Contingência de R$ 1,839 bilhão vinculada ao não cumprimento de metas em parcerias comerciais e financeiras.
- Perdas por impairment: Ajuste de R$ 971 milhões referentes à perda de valor em ágio e ativos intangíveis.
- Reestruturação severa: Despesas acumuladas com reorganização de pessoal e encerramentos operacionais.
Paralelamente ao balanço, a companhia promoveu um drástico enxugamento estrutural: em um intervalo de poucos dias, encerrou as atividades de 298 lojas — o equivalente a cerca de 29% do total de sua rede física — e demitiu cerca de 1,9 mil funcionários.
Juros altos, concorrência e o peso das apostas online
A diretoria da Casas Bahia justificou o desempenho pela combinação de taxas de juros elevadas (com a Selic em patamar restritivo), maior rigidez dos credores e seguradoras para a concessão de crédito aos fornecedores e retração no consumo das famílias. Em nota oficial, a empresa citou ainda um fator emergente de pressão: a disputa direta pelo orçamento doméstico das famílias brasileiras provocada pelas apostas esportivas e jogos virtuais (bets).
Além do ambiente econômico adverso, a empresa sofreu um revés recente nas suas estratégias financeiras internacionais após a frustração de rodadas de captação de dívida no exterior que eram vistas como essenciais para aliviar o passivo.
Caminhos incertos e novos arranjos de dívida
A Casas Bahia já havia recorrido a um plano de recuperação extrajudicial homologado em 2024 para renegociar R$ 4,1 bilhões em dívidas. Contudo, sem a recuperação esperada nas margens operacionais e diante do estrangulamento da liquidez, a varejista informou que continua avaliando com assessores financeiros, credores e stakeholders alternativas operacionais e societárias para reorganizar formally passivos adicionais.
Por ora, a administração enfatiza que a prioridade é a manutenção do fluxo de caixa e a preservação de fôlego operacional, mas adverte que os desdobramentos de uma nova reorganização ainda dependem da concordância de credores e das condições de mercado.
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