Anvisa revoga restrições e abre caminho para Mercado Livre, iFood e grandes varejistas disputarem o mercado de remédios online no Brasil

​A venda de medicamentos por meio de ambientes virtuais e aplicativos de entrega vive um marco histórico no país. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) revogou as resoluções e medidas preventivas que proibiam a comercialização, distribuição e publicidade de medicamentos em ecossistemas digitais de empresas como Mercado Livre, iFood, Rappi, Shopee, Submarino e Americanas.

​A decisão fundamenta-se na aprovação da Lei nº 15.357/2026, que autorizou expressamente farmácias e drogarias regularmente licenciadas a contratar marketplaces e canais de e-commerce para intermediar o processo de venda, logística e entrega de medicamentos aos consumidores finais.

​Apesar da revogação das punições prévias, a Anvisa ressalta que a autorização para operação plena não é automática. O setor aguarda agora a publicação de uma norma regulatória complementar emitida pela própria agência sanitária. Essa regulamentação irá determinar com precisão os requisitos técnicos, exigências de rastreabilidade, fiscalização de receitas e regras de armazenamento e transporte que deverão ser seguidos rigorosamente.

​A movimentação das gigantes de tecnologia

​As Big Techs e plataformas de delivery vêm estruturando suas operações há tempos para abocanhar uma fatia valiosa deste mercado de altíssima recorrência:

  • Mercado Livre: Operando em modelo de testes após adquirir uma farmácia física no bairro do Jabaquara, em São Paulo (adquirida junto à Memed), o Mercado Livre usou o espaço como laboratório e projeto-piloto para ajustar fluxos operacionais e entender o comportamento do consumidor. O objetivo final da gigante do e-commerce é atuar fortemente no modelo 3P (third-party), operando como a plataforma conectora entre as farmácias credenciadas e o cliente.
  • iFood e Rappi: Os aplicativos de delivery já contavam com forte presença na entrega de produtos de conveniência, higiene e higiene pessoal (hpc). Com o avanço regulatório, o iFood declarou estar à disposição do órgão regulador para contribuir com sua tecnologia de intermediação e logística rastreável e segmentada. As empresas argumentam que atuam exclusivamente na ponte tecnológica, enquanto a responsabilidade técnica e o farmacêutico permanecem ligados aos estabelecimentos parceiros.
  • Amazon e Shopee: A Amazon acompanha os desdobramentos atenta aos êxitos da Amazon Pharmacy no exterior, modelo focado em entregas agilizadas e gerenciamento de prescrições digitais, enquanto a Shopee também teve sanções revogadas pela agência sanitária e integra a lista de plataformas aptas a expandir a oferta no setor.

​O contraponto das grandes redes de farmácia

​Apesar da chegada dos gigantes tecnológicos ao segmento, analistas de mercado e especialistas do setor farmacêutico apontam que grandes redes consolidadas — como Raia Drogasil (RD), Pague Menos e Panvel — mantêm trunfos decisivos no embate:

  1. Agilidade e capilaridade extrema: Em medicamentos de urgência, o fator tempo é predominante. Enquanto compras padrão via marketplace podem levar horas ou dias, as redes físicas funcionam como mini-centros de distribuição de alcance imediato, entregando medicamentos em questão de minutos ou poucas horas no raio de suas lojas.
  2. Serviços farmacêuticos e atendimento técnico: Medicamentos Isentos de Prescrição (MIPs) e controlados exigem supervisão e assistência do profissional farmacêutico. O canal de confiança presencial e o portfólio completo de saúde e exames rápidos fortalecem a fidelização nas lojas físicas e nos canais próprios das grandes redes.

​A expectativa do setor é de que o novo ecossistema não destrua a atuação das grandes redes, mas funcione como um canal adicional de vendas para drogarias tradicionais, descentralizando a distribuição e oferecendo mais conveniência e opções ao consumidor final assim que as regras sanitárias definitivas forem ratificadas pela Anvisa.


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