SÃO PAULO — Há cerca de dez meses, o cofundador e presidente executivo da Oracle, Larry Ellison, viveu o ápice de sua trajetória financeira ao alcançar, ainda que brevemente, o topo do ranking de pessoas mais ricas do mundo. Hoje, contudo, o empresário de 81 anos converteu-se na figura mais vulnerável do corrida global pela inteligência artificial (IA).
A estratégia agressiva do executivo em transformar a gigante de software em uma potência de infraestrutura em nuvem para IA cobrou um preço elevado. Para erguer centros de dados e adquirir chips de última geração, a Oracle financiou uma expansão colossal por meio de dívidas pesadas. O resultado colocou a saúde financeira da empresa e a fortuna de seu fundador sob intensa pressão do mercado financeiro.
Ações em queda e rating de crédito no limite
Desde o pico histórico alcançado em setembro de 2025, os papéis da Oracle acumulam uma derrocada de cerca de 64%. Com a desvalorização acelerada, aproximadamente US$ 213 bilhões evaporaram do patrimônio pessoal de Ellison, cuja riqueza está concentrada quase em sua totalidade nas ações da companhia.
O ceticismo de Wall Street não se restringe à volatilidade acionária. Em julho, a agência de classificação de risco S&P Global Ratings rebaixou a nota de crédito de longo prazo da Oracle para BBB-. A nota deixa a empresa a apenas um degrau do grau especulativo (conhecido no mercado como status junk ou “título podre”). Caso venha a sofrer novo rebaixamento, a Oracle entrará na categoria de fallen angel (“anjo caído”), o que encareceria drasticamente os custos de captação de recursos e restringiria seu acesso a grandes investidores institucionais.
Dependência de grandes clientes e queima de caixa
O modelo adotado pela Oracle colocou a companhia em uma posição delicada em comparação a outros hyperscalers do setor tecnológico, como Microsoft, Amazon e Alphabet, que possuem balanços mais diversificados e caixa operacional robusto para bancar seus próprios investimentos em IA.
A Oracle tornou-se altamente dependente de um grupo restrito de clientes de grande porte, destacando-se a OpenAI. A empresa firmou compromissos bilionários em capacidade de processamento com a desenvolvedora do ChatGPT. No entanto, analistas do setor alertam para o risco dessa engrenagem: a OpenAI continua a queimar volumes bilionários de caixa e não projeta lucros no curto prazo. Se os clientes finais atrasarem pagamentos ou enfrentarem dificuldades de captação, a Oracle poderá ficar sobrecarregada com compromissos bilionários de infraestrutura e arrendamento de data centers sem o retorno esperado no tempo hábil.
O dilema de Wall Street
A transição da euforia para a cautela em relação à IA reflete uma mudança de postura de investidores e analistas. Se antes o anúncio de contratos bilionários de capacidade computacional impulsionava as ações, agora o mercado exige provas concretas de geração de fluxo de caixa livre e sustentabilidade do endividamento.
Embora Ellison seja reconhecido por atravessar e se recuperar de ciclos conturbados na tecnologia — como o estouro da bolha das empresas de internet nos anos 2000 —, a escala atual dos compromissos financeiros da Oracle coloca a empresa no centro dos debates sobre os limites do boom de investimento na infraestrutura de inteligência artificial.
Descubra mais sobre O expresso Br
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.



