O que começou como um retiro espiritual transformou-se em uma das estratégias mais procuradas para combater a crise populacional na Coreia do Sul. Em meio a jardins centenários e ao som de gongos de meditação, monges vestidos com túnicas tradicionais assumiram um papel incomum: o de cupidos e incentivadores da maternidade e da paternidade para uma geração reclusa ao casamento.
A iniciativa — liderada pela Ordem Jogye, a maior seita budista do país, por meio de programas como o Kkotdambul (“Caminho das Flores”) da Fundação Social Budista — promove encontros de dois dias em templos como Naksansa e Namsansa. Durante a imersão, homens e mulheres participam de dinâmicas de construção de confiança sob orientação religiosa, que incluem meditação às cegas, conversas sobre valores de vida e caminhadas na natureza. O objetivo declarado pelos monges é claro: incentivar que os jovens encontrem parceiros e formem famílias para reverter o envelhecimento populacional do país.
Alta procura e o nascimento do primeiro bebê
A resposta dos jovens sul-coreanos ao programa superou todas as expectativas institucionais. Em edições recentes, a concorrência chegou a registrar mais de 4.200 inscrições para apenas 20 vagas disponíveis, demonstrando um forte desejo de conexão romântica em um ambiente considerado seguro, sério e autêntico por parte dos participantes.
A iniciativa já começou a render frutos concretos: além de múltiplos casamentos celebrados entre ex-participantes, o programa comemorou o nascimento do primeiro bebê fruto das uniões formadas nos retiros dos templos.
Uma resposta comunitária à menor taxa de fertilidade do mundo
A urgência por trás do engajamento religioso reflete a gravidade do cenário populacional sul-coreano. A Coreia do Sul enfrenta há anos a menor taxa de fertilidade do planeta, impulsionada pelos altos custos de moradia, rotinas de trabalho exaustivas e transformações culturais que adiaram ou descartaram o casamento.
Embora projeções recentes comecem a indicar uma leve recuperação e uma mudança gradual de atitude dos jovens em relação à vida conjugal, o apoio de instituições como a Ordem Jogye tornou-se um pilar complementar às políticas públicas do governo em Seul. Ao unir a sabedoria ancestral, a busca pela espiritualidade e o desejo de formar família, os templos milenares sul-coreanos provam que a tradição pode ser uma aliada fundamental na construção do futuro demográfico do país.
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