SÃO PAULO — A Alphabet, holding dona do Google, apresentou no balanço do segundo trimestre o maior lucro líquido de sua história: expressivos US$ 112,1 bilhões, uma alta impressionante de quase 300% em relação ao mesmo período do ano anterior. No entanto, mesmo superando as projeções mais otimistas de Wall Street e registrando faturamento de US$ 119,8 bilhões (+24%), as ações da empresa negociadas em Nova York reagiram em queda de cerca de 4%.
O aparente contrassenso nos números revela que o mercado financeiro olhou com lupa para além da linha final do balanço, onde dois fatores cruciais explicaram a cautela dos investidores: a natureza contábil do lucro recorde e o peso dos gastos com infraestrutura de Inteligência Artificial (IA).
O “segredo” dos US$ 112 bilhões: ganhos extraordinários
À primeira vista, o resultado astronômico sugere que a operação do Google se tornou uma máquina irrefreável de gerar caixa. Na prática, contudo, a receita gerada diretamente pela venda de anúncios, serviços de nuvem e buscas produziu um lucro operacional de US$ 40,8 bilhões — um crescimento saudável de 30%, mas bem distante dos US$ 112 bilhões do balanço final.
A diferença expressiva decorre de um ganho contábil não operacional de aproximadamente US$ 98 bilhões, provocado pela forte revalorização de participações societárias da Alphabet em startups e empresas de tecnologia de ponta, como a Anthropic e a SpaceX. Por se tratar de oscilações no valor de mercado desses ativos — e não de dinheiro novo entrando de forma recorrente por meio de produtos do Google —, investidores desconsideraram o número inflacionado ao avaliar a sustentabilidade do negócio.
A corrida da IA: capex bilionário e caixa no vermelho
Outro ponto central de atenção foi o avanço maciço das despesas de capital (capex). Para manter a liderança na corrida tecnológica contra rivais como OpenAI e Microsoft, a Alphabet acelerou a construção de data centers e a compra de semicondutores de última geração.
Os investimentos expressivos somaram US$ 44,9 bilhões no período e impactaram o fluxo de caixa livre da empresa, que ficou temporariamente negativo em US$ 5,86 bilhões — em contraste com o saldo positivo de US$ 5,30 bilhões registrado no mesmo trimestre do ano passado.
Apesar de o CEO da Alphabet, Sundar Pichai, reforçar que a integração do modelo Gemini vem impulsionando as buscas e acelerando o Google Cloud (cuja receita avançou 82%, alcançando US$ 24,8 bilhões), o mercado teme a pressão prolongada sobre as margens operacionais à medida que a corrida de infraestrutura para IA exige bilhões de dólares em aportes contínuos.
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